Memória, público e resistência: Bianca Salles Pires reflete sobre os cinemas latino-americanos e a força dos espaços coletivos
- Eudaldo Monção Jr.

- 28 de abr.
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Atualizado: 28 de abr.
Xalapa, Veracruz, México

Pesquisadora brasileira radicada no México analisa a permanência afetiva do cinema mexicano na América Latina e destaca o papel dos cineclubes na reconstrução da experiência coletiva do audiovisual.
A relação entre cinema, memória e espaço urbano atravessa a trajetória acadêmica da pesquisadora brasileira Bianca Salles Pires, doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, que há anos investiga a formação de públicos cinematográficos no Brasil e, mais recentemente, no México. Durante sua participação nas atividades na 5ª Autêntica Mostra Cinemas do Brasil: Reminiscências do Passado Histórico, realizada na Cidade do México e em Xalapa, a pesquisadora compartilhou reflexões sobre o desaparecimento dos cinemas de rua, a permanência simbólica do cinema mexicano na América Latina e a importância dos cineclubes como espaços de resistência cultural.
Desde a graduação em Ciências Sociais, Bianca dedica sua pesquisa ao estudo dos espectadores e dos modos de recepção do cinema. Seu primeiro trabalho analisou os frequentadores do tradicional cinema Estação Botafogo, no Rio de Janeiro. Posteriormente, no mestrado e no doutorado, ampliou o olhar para os grandes eventos de exibição, como o Festival do Rio e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, investigando como festivais e instituições moldam novas formas de encontro entre filmes e espectadores.
A mudança para o México surgiu como desdobramento natural dessa pesquisa. Em 2017, ela chegou ao país para um doutorado-sanduíche na Universidad Autónoma Metropolitana e, desde então, passou a desenvolver estudos sobre os circuitos alternativos de exibição em cidades mexicanas como Xalapa, onde atualmente observa a atuação de cineclubes, festivais independentes e pequenos espaços de projeção.
Segundo a pesquisadora, um dos aspectos mais marcantes da mostra foi perceber como filmes brasileiros que abordam memórias urbanas e antigas salas de cinema despertam identificação imediata no público mexicano.
“Mesmo em realidades distintas, a relação afetiva com os cinemas de rua aparece de maneira muito semelhante. As pessoas falam da ausência desses espaços como uma perda da própria cidade”, afirma.
Para Bianca, essa dimensão afetiva não se restringe ao passado. Ela observa que o fortalecimento dos cineclubes na América Latina representa uma tentativa de reconstruir o vínculo coletivo com o cinema em um momento em que o consumo doméstico se tornou dominante.
“Depois da pandemia, muitos países passaram a compreender novamente a importância de assistir a um filme em comunidade. O cineclubismo hoje não é apenas exibição; ele é também formação de público e construção de pertencimento”, explica.
Outro ponto destacado por Bianca é a forte presença histórica do cinema mexicano em países como o Brasil. Durante uma pesquisa sobre a circulação do cinema de ouro mexicano na Ibero-América, ela identificou a atuação da distribuidora estatal Pelmex, responsável por levar produções mexicanas a diferentes países e, em alguns casos, colaborar com a implantação de salas de cinema.
Entre os anos 1940 e 1950, o cinema mexicano chegou a ocupar um lugar central no mercado exibidor brasileiro, mobilizando grandes plateias e estabelecendo uma conexão emocional duradoura com os espectadores. Nomes como María Félix e Cantinflas tornaram-se referências populares em diversos países do continente.
Bianca também aponta que o crescimento do cinema mexicano foi favorecido por circunstâncias geopolíticas. Durante a Segunda Guerra Mundial, a indústria argentina — até então uma das principais da região — sofreu com restrições impostas pelos Estados Unidos ao fornecimento de material fílmico, enquanto o México recebeu apoio técnico e econômico para fortalecer sua produção.
Esse contexto ajudou a consolidar uma cinematografia que ultrapassou fronteiras nacionais e passou a integrar a memória cultural latino-americana.
“Em entrevistas que realizei em diferentes países, é impressionante perceber como o cinema mexicano permanece vivo nas lembranças das pessoas. Não é apenas lembrado como entretenimento, mas como parte da própria história afetiva delas”, observa.
Ao acompanhar a mostra e dialogar com pesquisadores, gestores e espectadores, Bianca reforça a percepção de que o cinema continua sendo um território de encontro entre memória, cidade e identidade coletiva — especialmente em um momento em que novas formas de circulação procuram reinventar a experiência de ver filmes juntos.
A pesquisadora Bianca Salles Pires desenvolve estudos voltados para a relação entre cinema, circulação cultural e formação de públicos na América Latina, investigando como as obras audiovisuais atravessam fronteiras e constroem experiências coletivas de memória e identidade. Em seu capítulo “Apartado I Países. Brasil”, publicado no livro Públicos Iberoamericanos del cine mexicano de la época de oro: Trayectorias analógicas y digitales de una identidad compartida (2021), a autora analisa a presença do cinema mexicano clássico no Brasil e os modos como esses filmes foram apropriados pelos espectadores brasileiros como parte de um imaginário latino-americano comum. Disponível em: Pires, Bianca Salles (2021) – “Brasil”:
Em outro estudo, “Los festivales cinematográficos foráneos y los circuitos culturales del cine documental en Xalapa, Veracruz”, Bianca examina o papel dos festivais como espaços de mediação cultural e formação de novos públicos para o cinema documental, destacando como esses eventos fortalecem redes entre realizadores, curadores e espectadores. Disponível em: Pires, Bianca Salles – “Los festivales cinematográficos foráneos y los circuitos culturales del cine documental en Xalapa, Veracruz”:
A Autêntica Mostra Cinemas do Brasil é uma realização de Eudaldo Monção Jr., por meio da Memorabilia Filmes e apresenta um panorama de filmes que buscam homenagear os cinemas de rua do país e que propõem uma discussão sobre a atual situação desses monumentos arquitetônicos. A quinta edição do projeto conta com o apoio cultural das Embaixadas do Brasil na Cidade do México, em São Salvador e em Manágua, por meio de suas unidades do IGR – Instituto Guimarães Rosa. Conta com apoio também do Ágora de la Ciudad, da Secretaría de Cultura e Gobierno del Estado de Veracruz, da Red Xalapeña de Cineclubes, da Maraña es Cultura AC, da UNAN Manágua – Universidad Nacional Autónoma de Nicaragua, do IRDEB – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (TVE Bahia e Educadora FM), da TV Educa Bahia e do Colégio Estadual Dr. José Marcelino de Souza, através da Secretaria de Educação, do Pouso das Artes através do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), da Diretoria de Audiovisual e Multimeios (DIMAS), através da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB). O evento conta ainda com a parceria institucional do CTAv – Centro Técnico Audiovisual, referência nacional na preservação, salvaguarda e difusão de materiais cinematográficos e audiovisuais, e com apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, da Secretaria da Fazenda e da Secretaria de Cultura, através do Edital de Mobilidade Artística e Intercâmbio.

Entrevista realizada em 17 de março de 2026 em Xalapa, Veracruz, México | Bianca Salles Pires fala sobre memória cinematográfica, cineclubismo e a circulação do cinema mexicano na América Latina
Entrevistador: Eudaldo Monção Jr.
Entrevistada: Bianca Salles Pires
Eudaldo Monção Jr.:
Para começarmos, você pode se apresentar?
Bianca Salles Pires:
Meu nome é Bianca Salles Pires, sou doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e venho pesquisando públicos de cinema no Brasil desde a graduação. Meu interesse começou ainda na licenciatura, quando estudei os cinemas do Rio de Janeiro, e se aprofundou no doutorado, com uma pesquisa sobre o Festival do Rio e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Eudaldo Monção Jr.:
Sua pesquisa de mestrado já dialogava com esse tema?
Bianca Salles Pires:
Sim. Desde o início da minha trajetória acadêmica eu estudo públicos de cinema. Na licenciatura, em Ciências Sociais, desenvolvi uma monografia sobre os frequentadores do Estação Botafogo. Depois fiz mestrado e doutorado em Sociologia, sempre mantendo esse interesse pela relação entre público, espaço urbano e experiência cinematográfica.
No doutorado, ampliei a pesquisa para pensar a circulação de películas e a formação de públicos entre Rio de Janeiro e São Paulo, observando instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Museu de Arte de São Paulo, especialmente a partir da década de 1960.
Eudaldo Monção Jr.:
E sua ida para o México também está ligada à pesquisa?
Bianca Salles Pires:
Completamente. Vim pela primeira vez ao México em 2017 para realizar um doutorado-sanduíche na Universidad Autónoma Metropolitana, na unidade de Iztapalapa, na área de Antropologia. Depois de concluir a tese no Brasil, retornei ao país para aprofundar pesquisas sobre os espaços de exibição e os públicos do cinema mexicano. Atualmente, venho estudando cineclubes, festivais e outras formas de circulação audiovisual em Xalapa, sempre pensando na importância desses espaços para a construção da experiência coletiva do cinema.
Eudaldo Monção Jr.:
Como a programação da mostra dialoga com sua pesquisa? Houve alguma obra ou debate que tenha provocado novas reflexões?
Bianca Salles Pires:
Sem dúvida. Eu pude acompanhar uma sessão na Cidade do México e outras três aqui em Xalapa. Para mim, foi especialmente importante assistir aos filmes neste contexto, porque é justamente a cidade onde estou pesquisando.
A mostra reuniu não apenas espectadores habituais, mas também gestores culturais, professores da Universidade Veracruzana e pessoas ligadas a projetos de exibição. Isso já demonstra como o tema desperta interesse em diferentes áreas. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi perceber como os filmes brasileiros apresentados dialogam com experiências muito semelhantes vividas aqui no México. Mesmo em contextos distintos, as memórias ligadas aos cinemas de rua, à formação afetiva dos públicos e à ausência desses espaços no tecido urbano aparecem de forma muito parecida. Muitas pessoas relatam a falta que esses cinemas fazem. E, ao mesmo tempo, a mostra reforça a percepção de que o cineclubismo pode ser uma resposta importante para esse momento em que a experiência coletiva do cinema precisa ser fortalecida novamente.
Eudaldo Monção Jr.:
Você acredita que esse movimento de retomada dos espaços coletivos é uma tendência na América Latina?
Bianca Salles Pires:
Acredito que sim. Depois da pandemia e da consolidação do consumo audiovisual doméstico, muitos países latino-americanos passaram a repensar a importância do encontro presencial em torno do cinema. Em Veracruz, por exemplo, existe hoje uma rede muito ativa de cineclubes. Mesmo sem ser um grande centro como Cidade do México, Guadalajara ou Monterrey, o estado apresenta um número expressivo de espaços dedicados à exibição independente.
Isso mostra que, diante do fechamento das antigas salas comerciais, surgem novas formas de manter viva a experiência cinematográfica. E eu vejo isso com bastante esperança, porque assistir a um filme coletivamente continua sendo algo insubstituível.
Eudaldo Monção Jr.:
Gostaria que você comentasse também a relação entre o cinema mexicano e o Brasil, especialmente durante a Era de Ouro.
Bianca Salles Pires:
Essa é uma questão muito interessante. Durante uma pesquisa sobre a circulação do cinema mexicano na Ibero-América, pude observar a importância da Pelmex, uma distribuidora estatal mexicana que atuou não apenas na distribuição de filmes, mas também na construção e manutenção de salas de cinema em outros países, incluindo o Brasil. Algumas obras da mostra inclusive apresentaram cinemas brasileiros com nomes inspirados em cidades mexicanas, como Acapulco e Jalisco, o que revela como essa presença foi marcante. Entre o final dos anos 1940 e a década de 1950, o cinema mexicano chegou a ser uma das cinematografias estrangeiras mais exibidas no Brasil. Em determinados momentos, rivalizou até mesmo com a presença do cinema norte-americano. Artistas como María Félix e Cantinflas mobilizavam grandes públicos, e havia um vínculo afetivo muito forte entre os espectadores latino-americanos e aquelas produções.
Eudaldo Monção Jr.:
E como entra a relação com o cinema argentino nesse processo?
Bianca Salles Pires:
Nos anos 1940, México e Argentina eram as duas principais potências cinematográficas da América Latina. Porém, durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram a dificultar o acesso argentino ao material fílmico, o que enfraqueceu sua indústria. Ao mesmo tempo, o México recebeu investimentos e apoio técnico, porque representava uma possibilidade estratégica para a circulação de filmes em espanhol por toda a América Latina. O resultado foi o fortalecimento da indústria mexicana, que cresceu muito além do esperado e criou uma relação profundamente afetiva com públicos em diversos países do continente. Nas entrevistas que realizei em países como Venezuela, Peru e Paraguai, é impressionante perceber como o cinema mexicano permanece vivo na memória das pessoas, não apenas como entretenimento, mas como experiência emocional e cultural compartilhada.
Eudaldo Monção Jr.:
Muito obrigado pela conversa.
Bianca Salles Pires:
Eu que agradeço.




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