Cinemas pelo Mundo: Oaxaca revela memórias das salas de cinema no México
- Eudaldo Monção Jr.

- 30 de abr.
- 8 min de leitura
Oaxaca de Juárez, Oaxaca, México

Pesquisa da 5ª Autêntica Mostra Cinemas do Brasil percorre espaços de exibição em Oaxaca de Juárez e revela como antigas salas comerciais, microcinemas e teatros históricos mantêm viva a memória cinematográfica no centro cultural do sul do México.
A série de reportagens “Cinemas pelo Mundo” apresenta ao público os resultados das saídas fotográficas realizadas como parte da 5ª Autêntica Mostra Cinemas do Brasil: Reminiscências do Passado Histórico, projeto de intercâmbio cultural que levou produções dedicadas à memória dos cinemas brasileiros para diferentes países da América Latina. Além da circulação dos filmes, a iniciativa também promoveu o mapeamento e o registro fotográfico de antigos cinemas de rua em cidades latino-americanas, reunindo imagens, relatos e informações históricas para a produção de conteúdos especiais publicados no site oficial do projeto. A proposta da pesquisa é compreender de que maneira os edifícios ligados à exibição cinematográfica continuam presentes nas paisagens urbanas, seja preservados, transformados ou ressignificados por novos usos culturais.
Na cidade de Oaxaca de Juárez, no sul do México, a investigação permitiu identificar diferentes espaços relacionados à exibição cinematográfica, revelando fragmentos da relação entre arquitetura, memória urbana e experiência coletiva do cinema naquela localidade. Em uma cidade reconhecida internacionalmente por seu patrimônio histórico e por sua intensa vida cultural, o cinema permanece presente em formas muito distintas: desde antigas salas populares transformadas pelo tempo até pequenos microcinemas contemporâneos dedicados à cinefilia independente.

Um dos primeiros pontos identificados foi o imóvel situado na Bustamante 722, Centro, onde funciona atualmente o Cinema Venus, espaço que também já foi conhecido como Cine Rex e anteriormente registrado em diferentes cadastros como “Cine Venus (antes Cine Río / Rex)”. A própria sucessão de nomes indica uma trajetória de mudanças ao longo do tempo, algo comum em antigos cinemas urbanos que precisaram adaptar seu perfil para sobreviver às transformações do mercado exibidor.
Hoje, o local é dedicado à exibição de filmes pornográficos heterossexuais, funcionando geralmente entre o final da tarde e a noite, com ingressos de valor bastante acessível. Há relatos de frequentadores que mencionam que muitos dos filmes exibidos são legendados, e não dublados em espanhol, além de observações sobre a baixa iluminação interna da sala, característica que reforça o caráter discreto do espaço. Embora atualmente esteja associado ao circuito adulto, há evidências consistentes de que o Cine Rex/Venus não nasceu com essa finalidade.
Antes de sua transformação, o espaço provavelmente integrou o circuito convencional de exibição de Oaxaca, apresentando filmes comerciais, produções mexicanas populares e sessões familiares, como ocorreu com muitos cinemas de rua no México durante o século XX. Em várias cidades mexicanas, antigas salas tradicionais migraram para o conteúdo adulto entre as décadas de 1980 e 1990 como estratégia de sobrevivência diante da crise econômica do setor. Um registro empresarial antigo menciona o imóvel como “Cinema Río–Salón Rex”, ainda classificado apenas como cinema, sem qualquer referência ao conteúdo adulto. Outro diretório aponta o Salón Rex e o Cine Río como salas vizinhas ou associadas na mesma rua Bustamante, sugerindo que o imóvel participou do antigo circuito exibidor do centro histórico. Apenas em registros mais recentes da Secretaria de Cultura mexicana o local passa a aparecer oficialmente como “Cine Rex para Adultos”, demonstrando que a identidade atual foi construída posteriormente.
A análise desse edifício revela um processo recorrente em muitas cidades latino-americanas: antigos cinemas de rua, que antes funcionavam como espaços de encontro social e cultural, foram sendo empurrados para nichos marginais como forma de continuar abertos. Ainda assim, a permanência física do edifício preserva uma camada importante da história urbana do cinema em Oaxaca.

Outro espaço identificado durante a pesquisa foi o Museo del Video Oaxaca, localizado na Miguel Cabrera 607-2, Centro. Diferente do Cinema Venus, o museu representa uma iniciativa contemporânea voltada à preservação da memória audiovisual. O local funciona como uma combinação entre microcinema, arquivo e centro cultural, promovendo sessões especiais de cinema de arte, exibição de clássicos restaurados, debates sobre história do cinema e atividades de formação de público.
Embora pequeno, o espaço se tornou referência para cineastas, pesquisadores e espectadores locais. O museu é descrito como uma verdadeira “salita de cine de barrio”, uma pequena sala de bairro onde o cinema recupera sua dimensão mais próxima e comunitária. Apesar de estar situado próximo a antigas áreas do circuito comercial da cidade, o Museo del Video não aparece nos estudos sobre os cinemas históricos de Oaxaca entre 1898 e 1961, reforçando seu caráter de iniciativa recente dedicada à resistência cultural.
Durante a visita realizada em um domingo, o espaço estava fechado. Ainda assim, ao caminhar pelas ruas próximas e conversar com moradores e frequentadores, foi possível compreender a importância simbólica do local para o público atual. Muitos relatos descrevem o ambiente como acolhedor, íntimo e profundamente ligado à comunidade. Segundo visitantes, o espaço realiza exibições semanais às quintas-feiras mediante uma contribuição simbólica de 50 pesos, com programações organizadas em torno de temas mensais. Um dos frequentadores relatou ter assistido a uma sessão de Demolition Man acompanhada de pipoca gratuita, destacando que, embora simples, o local oferece uma experiência autêntica e afetiva para quem deseja ver filmes fora do circuito comercial.
Outro visitante descreveu o espaço como “um lugar extraordinário que abriga uma coleção de vídeos e oferece sessões de cineclube para amigos”, ressaltando a hospitalidade do anfitrião, que transforma cada sessão em uma experiência doméstica e coletiva ao mesmo tempo. Esse aspecto faz com que o museu ultrapasse a função de simples espaço de exibição para se tornar um centro de preservação da memória audiovisual da cidade.
Ligado diretamente a esse espaço está o Cinema Cuervo, projeto independente de exibição e preservação audiovisual que funciona no mesmo endereço. Mais do que um cinema tradicional, o Cinema Cuervo atua como microcinema de bairro, filmoteca local e espaço cultural, promovendo sessões de filmes clássicos e contemporâneos, digitalização de fitas VHS e outros suportes antigos, além de mostras, debates e ciclos temáticos dedicados ao cinema mexicano e internacional.
O próprio projeto se define como um “cineclub móvil”, dedicado à preservação da memória audiovisual de Oaxaca e à formação de novos públicos. As programações recentes incluem exibições de cinema mexicano contemporâneo, documentários, filmes restaurados e mostras especiais realizadas em parceria com cineclubes e instituições culturais. Em resposta aos elogios do público, o próprio responsável pelo espaço afirmou: “Continuaremos trabalhando para levar o melhor do cinema a Oaxaca.” Essa declaração resume o espírito do projeto: resistência cultural em escala íntima.

Outro espaço fundamental encontrado durante a pesquisa foi o OaxacaCine Alcalá, realizado dentro do histórico Teatro Macedonio Alcalá, na Avenida de la Independencia 900, Centro. Diferente dos demais espaços visitados, o OaxacaCine não é um cinema comercial permanente, mas um projeto institucional criado em 2011 para ampliar o acesso ao cinema de arte na cidade. Sua programação reúne filmes clássicos e contemporâneos, mostras de cinema mexicano e internacional, encontros com realizadores, ações de preservação audiovisual e oficinas de formação de público.
O aspecto mais interessante é que o projeto utiliza o interior do teatro histórico como sala de projeção, transformando temporariamente um dos edifícios mais importantes da cidade em espaço de exibição cinematográfica. O Teatro Macedonio Alcalá, no entanto, já possuía uma relação antiga com o cinema. Fontes históricas confirmam que o edifício recebeu projeções cinematográficas ao longo do século XX, além de apresentações teatrais, concertos, ópera e outros eventos públicos.
Durante boa parte do século passado, o teatro funcionou como um espaço multifuncional. Em determinados períodos, a administração permitia a exibição de películas comerciais, o que gerou críticas de estudantes e intelectuais locais nos anos 1960, que consideravam parte da programação pouco cultural. Registros históricos mencionam explicitamente que o local “albergava funciones de cine” antes da restauração do final dos anos 1990. Isso significa que o OaxacaCine não introduziu o cinema no edifício, mas retomou uma tradição anterior, agora reorganizada sob uma curadoria voltada ao cinema artístico e patrimonial.

Pelo contexto do circuito exibidor mexicano entre as décadas de 1940 e 1970, é provável que o teatro tenha exibido produções da chamada Época de Ouro do cinema mexicano, incluindo melodramas, musicais rancheros, comédias populares e filmes estrangeiros legendados. Artistas como María Félix, Pedro Infante e Cantinflas circulavam amplamente nesse período, ainda que não existam registros documentais específicos de sessões individuais no teatro.
Durante as andanças pelo centro histórico, também foi localizada a Sala Elia, na García Vigil 106, outro espaço dedicado à exibição cinematográfica na cidade. Infelizmente, não foi possível realizar o registro fotográfico do local porque, naquele momento, acontecia nas proximidades uma manifestação do Dia Internacional da Mulher, que mobilizava grande parte da região central. Durante o ato, alguns prédios do patrimônio cultural de Oaxaca foram depredados e uma porta chegou a ser incendiada, provocando alvoroço e intensa movimentação policial. Diante da situação, a visita foi adiada para uma futura oportunidade.
A Sala Elia é um microcinema independente com apenas 36 lugares, equipado com projeção digital e som surround. Sua programação é dedicada ao cinema de autor, documentários, retrospectivas, festivais e debates culturais, consolidando o espaço como um dos principais núcleos de cinefilia contemporânea em Oaxaca. Frequentadores o descrevem como um ambiente “muito confortável e agradável”, com “cinema de primeira classe” e excelente localização.
Nos últimos anos, a sala recebeu mostras de cinema mexicano contemporâneo, sessões do OaxacaCine itinerante, ciclos internacionais e exibições dedicadas à preservação audiovisual local. Entre alguns dos filmes recentemente projetados estão Valentina o la serenidad, Los amantes del Pont-Neuf e Sueño Mexicano, reafirmando a vocação do espaço para o cinema de arte e para a formação de público.
Mais do que um levantamento arquitetônico, a pesquisa em Oaxaca mostra como o cinema permanece vivo em diferentes camadas da cidade: em antigas fachadas degradadas, em teatros históricos reutilizados e em pequenas salas contemporâneas que mantêm a experiência coletiva da projeção. Em Oaxaca, o cinema continua sendo não apenas uma forma de entretenimento, mas também um elemento de memória urbana, resistência cultural e encontro social.
Por meio dessas imagens e relatos, “Cinemas pelo Mundo” constrói uma ponte entre passado e presente, mostrando como as salas de cinema seguem refletindo as transformações sociais, culturais e urbanas da América Latina. A pesquisa integra as ações da 5ª Autêntica Mostra Cinemas do Brasil: Reminiscências do Passado Histórico. No próximo texto, a série segue para a Cidade do México, onde novos vestígios da memória cinematográfica serão revelados nas ruas da capital mexicana.

Eudaldo Monção Jr. é produtor cultural, cineasta, jornalista e viajante. Idealizador da Autêntica Mostra Cinemas do Brasil, desenvolve projetos voltados à preservação da memória audiovisual e à valorização das salas de cinema por meio da Memorabilia Filmes, produtora dedicada à pesquisa, circulação e difusão do patrimônio cinematográfico no Brasil e na América Latina.
A Autêntica Mostra Cinemas do Brasil é uma realização de Eudaldo Monção Jr., por meio da Memorabilia Filmes e apresenta um panorama de filmes que buscam homenagear os cinemas de rua do país e que propõem uma discussão sobre a atual situação desses monumentos arquitetônicos. A quinta edição do projeto conta com o apoio cultural das Embaixadas do Brasil na Cidade do México, em São Salvador e em Manágua, por meio de suas unidades do IGR – Instituto Guimarães Rosa. Conta com apoio também do Ágora de la Ciudad, da Secretaría de Cultura e Gobierno del Estado de Veracruz, da Red Xalapeña de Cineclubes, da Maraña es Cultura AC, da UNAN Manágua – Universidad Nacional Autónoma de Nicaragua, do IRDEB – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (TVE Bahia e Educadora FM), da TV Educa Bahia e do Colégio Estadual Dr. José Marcelino de Souza, através da Secretaria de Educação, do Pouso das Artes através do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), da Diretoria de Audiovisual e Multimeios (DIMAS), através da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB). O evento conta ainda com a parceria institucional do CTAv – Centro Técnico Audiovisual, referência nacional na preservação, salvaguarda e difusão de materiais cinematográficos e audiovisuais, e com apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, da Secretaria da Fazenda e da Secretaria de Cultura, através do Edital de Mobilidade Artística e Intercâmbio.


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